LOCKHEED ELECTRA II
Propeller-driven airliner
FS2004 FSDS V3 model
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Abr/2007


Memórias de um viajante


 

CAI O PANO
Um período maravilhoso chegava ao fim.
O veterano Lockheed era o último remanescente dos anos de ouro, a era romântica da aviação, como diziam alguns.
A troca, porém, não foi unanimidade. O humorista Jô Soares definiu assim a situação: "de que adianta ganhar 15 minutos a menos de vôo se eu vou perder 15 centímetros de espaço na poltrona?".
No domingo, 5 de janeiro de 1992, somente três Electra operaram: PP-VNJ, PP-VLX e o PP-VJN. Este último, cumprindo o vôo VP651, transportou os derradeiros passageiros pagantes em aeronaves Electra no Brasil.
Após decolar do Rio às 11h42, pousou em Congonhas às 12h35.
Uma era brilhante acabou no momento em que o último dos quatro Allison parou de girar.
No dia seguinte, aconteceu uma grande e merecida festa de despedida. A Varig convidou passageiros freqüentes e personalidades para os últimos vôos de despedida, que foram cumpridos pelo PP-VJO e PP-VJN.
As redes de TV marcaram a data, jornais dedicaram páginas inteiras ao adeus.
Ao final da manhã, o PP-VJN fez algumas passagens rasantes após o último vôo dos convidados. Pousou e foi taxiando para os hangares da Varig em Congonhas. Com suas hélices quase parando, deixou para trás uma época que não volta mais. Tempo de bossa nova. Tempo em que se voava com elegância e conforto. Tempo de admirar, através da janela de um Electra, o espetáculo de sobrevoar baixinho a restinga da Marambaia, o Corcovado, o Pão de Açúcar. Tempo de conversas e paqueras no lounge, a simpática salinha de seis lugares, localizada no fundo da fuselagem. Tempo que não volta, como não voltam mais os Electra.
Um período de ouro servido por uma aeronave espetacular.
Durante sua vida na Varig, que começou em 2 de setembro de 1962, quando os comandantes Moscoso e Heinz Plato aterrissaram com o PP-VJM no Brasil, os 15 L-188 Electra que a Varig operou nunca estiveram envolvidos num único acidente.


 
  Somente um, o PP-VJP, foi perdido: foi durante um vôo de treino, ao fazer um pouso duro demais em Porto Alegre. Sua fuselagem sofreu avarias estruturais que resultaram em sua aposentadoria forçada.
Nenhum dos Electra, em tantos anos de operação, machucou um dedinho sequer de passageiros e tripulantes.
Os números de sua operação no Brasil foram tão magníficos como seu recorde de segurança.
De 1962 a 1992, fizeram em média 36 mil viagens na ponte cada um, totalizando somente na ponte mais de 500 mil vôos. Foram 217 milhões de quilômetros voados, 2,4 milhões de passageiros transportados por cada um dos 14 exempla­res. Foram 777.140 horas no ar ou 88,7 anos ininterruptos, o suficiente para 540 viagens de ida e volta à Lua. Consumiram 952 milhões de litros de combustível.
Depois de aposentados, os Electra foram colocados à venda. Esperando compradores, ficaram em Porto Alegre o PP-VLA, VLB, VLY, VJV e VNK. Entre 1992 e 1993, foram vendidos para a Blue Airlines, New ACS e Filair, todas na República Democrática do Congo.
Sem qualquer tipo de manutenção, voaram até onde conseguiram ou se envolveram em acidentes, alguns fatais. Um deles protagonizou uma tragédia impressionante: mais de 140 passageiros, muito acima do máximo permitido de 90 ocupantes, pereceram quando o ex-PP-VLA caiu após decolar de Kinshasa.
De todos os Electra da Varig, apenas dois sobrevivem e somente um opera regularmente: o ex-PP-VNK, que voa no Canadá como aeronave­bombeiro. O PP-VJM, primeiro a chegar ao Brasil, hoje descansa eternamente no museu do Campo dos Afonsos, único exemplar que resta no Brasil.
Dos 169 Electra construídos, menos de dez ainda operam regularmente, sobretudo em vôos de combate a incêndios ou no transporte de carga.
Texto extraído de “PONTE AÉREA – Quarenta anos de História da maior invenção da aviação comercial brasileira” da revista “FLAP INTERNACIONAL” no. 414 - Ano44 – págs. de 69 a 72. Autoria de Gianfranco Beting.
 


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